Siegfried Zilz sentado junto ao mar, em Cuba, em outubro de 2005
Cuba, outubro de 2005.

Em memória

Pr. Siegfried Rudy Zilz

23 de outubro de 1933 — agosto de 2026

Fundador da Missão A Fim de Proclamar. Pastor, tradutor, construtor de pontes — e, na assinatura de todas as suas mensagens, apenas um nome ao lado de “uma fantástica equipe de apoio”.

Um pastor de Porto Alegre

Siegfried Rudy Zilz nasceu em 23 de outubro de 1933. Pastor brasileiro, descendente de alemães, casado com Irma, pai de quatro filhos e avô de muitos netos, viveu em Porto Alegre, no bairro Cristo Redentor — numa casa que, por muitos anos, foi também o escritório central da missão: telefone tocando, e-mails de vários países, encomendas chegando com remédios, vacinas, instrumentos musicais e cirúrgicos, roupas e computadores.

Embora o seu nome fosse germânico e mitológico, como escreveu um jornalista que o visitou, ele era “bem brasileiro e bem real”. “Todos os membros da sua família são comprometidos com o Senhor Jesus”, registrou a mesma reportagem.

O chamado

As palavras de um prisioneiro

No início da década de 1980, a convite da Missão Portas Abertas, Siegfried serviu de intérprete para um pastor siberiano de origem alemã que veio testemunhar em igrejas do Brasil. Aquele homem falou dos seus mais de vinte anos numa prisão por causa da fé e dos sofrimentos da igreja perseguida. Ouvindo e interpretando aquelas mensagens, Siegfried ouviu também o chamado do Senhor para fazer alguma coisa em favor das igrejas perseguidas e dos missionários em áreas difíceis.

Em setembro de 1981 fez a primeira viagem com a Portas Abertas a Moçambique (levando socorro ao Pr. Celso Prado e à missionária Valnice Milhomens, sem registro fotográfico, sob governo comunista) e voltou em 1982, já como líder de equipe. Naquele ano recebeu o Irmão André, fundador da Portas Abertas, em Porto Alegre. Passou pela Transiberiana e por Moscou, e chegou a ocupar cargos de direção na missão, que ele chamava de sua “alma mater”.

Cinco fotografias de Siegfried Zilz ao longo dos anos: pregando, à mesa, sentado ao ar livre, em pé com a câmera e, por fim, sorrindo entre crianças
Ao longo dos anos.

Cuba, 1984

Ponte de amor

Em 1984 levou a primeira equipe de brasileiros a Cuba. Ali conheceu de perto a igreja, não só a sala de visitas, mas “a cozinha, a despensa e o banheiro”, e entendeu que era preciso fazer mais do que levar Bíblias. Nasceu a Missão A Fim de Proclamar: ajudar, com o que fosse possível, os obreiros que estão na frente de batalha.

Foram mais de cinquenta viagens a Cuba ao lado da Liga Evangélica de Cuba, e mais de 150 voluntários brasileiros em 25 anos, alguns presos ou expulsos por causa da obra. O recibo da alfândega cubana, de 26 de setembro de 1984, com as 24 Bíblias confiscadas na primeira viagem, ficou guardado na história da missão — assim como a lembrança de uma pregação ousada que custou uma deportação. Cada viagem começava com a preparação dos novatos, a bagagem cheia (um violão para deixar no destino, Bíblias, suprimentos, instrumentos hospitalares, peças) e a instrução de depender do Senhor em tudo.

“Siegfried, hermano: dile al tiempo que tu sueño ha sido más grande que la nieve que ha dejado en tus cabellos. Dile a los obstáculos que tu pasión no se enredó en sus redes. Dile a tu fuerza, si decae, que nada ha sido en vano — que tu siembra tendrá pastores y templos, predicadores y hermanos, sonrisas de gente humilde y corazones de amor abrigados. Y dile a Cuba que volverás otra vez, querido hermano.”

Homenagem recebida em Cuba, outubro de 2005

Em sua própria voz

Pontes de Amor

Pontes de amor, unindo povos, raças, nações.
Pontes que unem corações,
pontes que abraçam gerações.
Pontes que unem fronteiras,
rompendo ódio, pecado, barreiras,
a partir do “ide” em Jerusalém,
Judeia, Samaria e indo além.
Levando a Palavra aos confins da terra,
através das pontes do amor de Deus.
Pontes feitas de gente.
Gente que leva a semente.
Semente que morre ao dar vida —
vida de amor e de urgência,
pois breve a graça se encerra.
Pontes, pontes, muitas pontes de amor:
levam na ida, com lágrimas, amor e salvação;
trazem na volta bênçãos, alegria,
gratidão.

Siegfried Zilz, poema “Pontes de Amor”

Vídeo

“Pontes de Amor”, na voz de Siegfried

O poema que deu nome à sua maneira de trabalhar, recitado por ele mesmo. Uma frase sua: “A Fim de Proclamar — do outro lado da rua, e do outro lado do oceano.”

Mais vídeos da missão

África

Iemberém e Conakry

Depois, o clamor do outro lado do oceano. Em Guiné-Bissau, com a família Feistler, a missão ajudou a construir e sustentar um pequeno hospital, uma escola e uma igreja na aldeia de Iemberém. Em 2007 organizou o envio de um contêiner de material hospitalar, que ele mesmo se dispôs a acompanhar. Numa das viagens, em 2005, fez ele mesmo um parto no pequeno hospital — e a mãe deu à menina o nome de Irma. “Quando ela me pediu que não cortasse ainda o cordão umbilical, para que os espíritos dos ancestrais passassem por ele, eu lhe disse que o Espírito Santo já havia passado, e imediatamente o cortei.”

Foi em Quebo, Guiné-Bissau, que ele conheceu Mohamed Keita, um muçulmano de linhagem real que passou a vir todos os dias conversar “sobre o supremo propósito de Deus”. Siegfried conversou com ele por horas. Mohamed se converteu, casou-se com a missionária Tânia e voltou à sua terra natal, Guiné-Conakry, para pregar ao seu próprio povo — e a missão estendeu o braço de amor também para lá.

Siegfried Zilz sentado num galho de árvore ao lado de um amigo africano, ambos sorrindo
África.

Em suas palavras

“Não sabemos o que Deus tem reservado, mas vemos que Ele está cuidando de todos os detalhes.”

Assim Siegfried concluiu o relato sobre a conversão de Mohamed Keita. É uma boa síntese da maneira como ele trabalhou por mais de quarenta anos: atento aos detalhes, confiando no Dono da seara, e sempre em equipe.

Consciente da importância daqueles que se dispõem a arregaçar as mangas, ele terminava todas as suas mensagens com a mesma assinatura: “Siegfried Zilz e uma fantástica equipe de apoio”.

Aos 89 anos, em casa, ainda citava de cor a promessa que o sustentou: “Até a vossa velhice eu serei o mesmo, e até às cãs eu vos carregarei… Eu já o tenho feito, diz o Senhor” (Isaías 46:4). Ingrid Hort, secretária da missão por muitos anos, o descreveu como “um ancião com coração jovem quando fala de Jesus e de Missões”. Partiu para estar com o Senhor em agosto de 2026, aos 92 anos. Deixa a esposa, Irma, os quatro filhos e os netos. E deixa pontes em quatro nações.

Despedida

“Eterna gratidão”

A homenagem publicada pela missão em 19 de agosto de 2026: “Eterna gratidão e amor. Muitas são as flechas enviadas ao mundo. Tua secretária, querido Papi, uma serva, nada mais!” (Ingrid Hort). As histórias das pontes que ele construiu estão também no livro “Pontes de Amor”, de Ingrid Hort (Editora Faith, 2019).

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